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Cimeira do clima. Nem o exemplo europeu permitiu acordo a horas

Miami, Estados Unidos, Venezuela, Caracas
Cimeira do clima. Nem o exemplo europeu permitiu acordo a horas

“Este texto é completamente inaceitável. Há também um novo texto sobre perdas e danos [prevendo um mecanismo de compensação aos países que sofram consequências das alterações climáticas] em que é claro que a parte financeira ainda não está resolvida. Há duas opções sobre adaptação e ainda não há nada sobre a regulação dos mercados de licenças de emissão de gases com efeito de estufa”, continuou Jennifer Morgan

Todos estes apelos são reforçados pelo secretário-geral das Nações Unidas, que diariamente dedica palavras de incentivo aos representantes das 197 nações representadas na cimeira. ” No último dia da COP 25, peço aos países que enviem uma mensagem de ambição ao mundo” , escreveu António Guterres, na rede social Twitter

Madrid ainda está a tempo de ser “muito relevante”, insistia António Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, na quarta-feira passada, a dois dias do fim da 25.ª Conferência das Partes das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas ( COP 25 ). O apelo já revelava o desespero com a falta de ambição dos decisores políticos, que segundo Guterres, peritos e ativistas dominou as reuniões entre os representantes de 197 países, em Madrid. A cimeira devia ter terminado às 18.00 desta sexta-feira, mas prolongou-se, como já é habitual. No ano passado, em Katowice (Polónia), as negociações estenderam-se até domingo.

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O tempo extra é uma tentativa de desbloquear consensos, que podem ainda (ou não) dar origem a acordos. Uma coisa é certa: para que as expectativas fossem cumpridas, na Cimeira do Clima deveriam ser iniciadas e calendarizadas novas metas de emissões de gases na atmosfera, em relação às estabelecidas no Acordo de Paris (2015) , que têm obrigatoriamente de ser revistas na conferência do próximo ano, em Glasgow, no Reino Unido. Eram ainda esperados anúncios de maiores contribuições financeiras para o Fundo Verde do Clima, uma regulamentação para os mercados de carbono e um mecanismo de solidariedade para as vítimas de catástrofes naturais.

Mas o último rascunho do documento final e o resultado das negociações feitas na segunda e última semana da conferência deixaram muitos desiludidos. “O último rascunho não transmite ambição” , comenta, a partir de Madrid, Francisco Ferreira, presidente da associação ambientalista Zero

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Subscrever Ainda não há fumo branco quanto à divulgação das novas metas para as emissões de gases, traçadas em 2015 em Paris e sujeitas a revisão a cada cinco anos – quando todos os relatórios científicos , divulgados nos últimos tempos, alertam para a necessidade urgente de reduzir, pelo menos cinco vezes, a quantidade de emissões lançadas na atmosfera, sob pena de não ser possível atingir os 1,5º C em relação ao período industrial e de as ondas de calor e as tempestades atingirem a Terra de forma irreversível

O esforço mais palpável para discutir este assunto surge da nova Comissão Europeia , que durante a tomada de posse – dias antes do início da COP 25 – prometia dar especial atenção à luta contra as alterações climáticas. E nesta semana foram dados os primeiros passos para o concretizar, através da aprovação de um Pacto Ecológico Europeu (Green Deal). O plano prevê que o executivo comunitário avance, no próximo verão, com medidas concretas para atingir a neutralidade carbónica até 2050 e que serão transversais a todos os setores de atividade. Para já, a União Europeia admite travar mais a emissão de gases, passando de 50% para 55%. Um compromisso assumido por 26 dos 27 Estados membros, que só deixou de fora a Polónia por causa da grande dependência do país em relação ao carvão (representa 80% da energia).

O que está a atrasar as negociações? Há vários rascunhos das conclusões saídas da COP 25 – quer do documento geral quer das resoluções sobre o Acordo de Paris e sobre o Protocolo de Quioto -, mas há temas ainda por fechar. O que tem estado a atrasar mais as negociações é a regulamentação global para os mercados de carbono, que neste momento funcionam de forma isolada e com regras diferentes. Porém, ainda não é certo se será possível chegar a um consenso. Para já, foi apenas aprovada uma proposta para ultrapassar a dupla contagem nos mercados, o que pressupõe que cada nação só possa reduzir a sua quota-parte de emissões no seu país

Outro dos temas que provocaram mais incertezas foi o Mecanismo de Varsóvia de Perdas e Danos, um organismo para ajudar países que sofrem com catástrofes naturais. Irá constar no documento final, mas há pontos por esclarecer, como a forma de avaliação da catástrofe. “Isto funcionará como um perito da seguradora que vai ver um carro para perceber se já estava todo amolgado ou se isso aconteceu durante o acidente”, compara Francisco Ferreira. Também é preciso perceber que pacote financeiro auxiliará este fundo, uma vez que as contribuições para o Fundo Verde Climático têm também ficado muito aquém do objetivo dos cem mil milhões de euros anuais. Portugal é um dos países que não duplicaram a sua contribuição face ao período homólogo

Por tudo isto, ambientalistas, empresas, sindicatos e mesmo alguns políticos olham para a COP 25 como um “desastre completo”. A própria ministra do Ambiente espanhola, Teresa Ribera, a anfitriã em conjunto com o Chile, admitiu que há duas velocidades entre as 197 nações: se há países que querem aumentar as suas ambições, outros não estão sequer dispostos a cumprir o que já se debate há quatro anos, desde o Acordo de Paris, como os Estados Unidos, a China ou o Brasil. É “tempo de agir”, prometia o mote da cimeira, agora com um sabor amargo

“A COP25 falhou-nos” “A COP 25 falhou-nos a nós e a mais sete milhões de grevistas”, dizia, nesta sexta-feira, em conferência de imprensa, a ativista espanhola Maria Olivella, antes de mais um protesto do movimento Fridays for Futures . Num dos pavilhões da Feira de Madrid, onde acontece a COP 25, duas centenas de jovens juntaram-se para voltar a pedir justiça climática. Dentro e fora do espaço da conferência do clima, os estudantes não se inibem de mostrar a sua desilusão, até pelo facto de serem empresas como as espanholas Iberdrola, Endesa e Acciona “responsáveis por 25% das emissões em Espanha” a patrocinar a conferência, questionando se “é a COP 25 que precisa do dinheiro ou se são as empresas que precisam de lavar as mãos”

O sentimento de indignação em relação ao trabalho da COP é partilhado por todas as gerações. A diretora executiva da organização ambientalista Greenpeace, Jennifer Morgan, considerou “inaceitável” a versão mais recente de um rascunho de resolução final em que se admite retirar o apelo às nações para “aumentarem o nível de ambição em 2020 em resposta à emergência climática”.

“Este texto é completamente inaceitável. Há também um novo texto sobre perdas e danos [prevendo um mecanismo de compensação aos países que sofram consequências das alterações climáticas] em que é claro que a parte financeira ainda não está resolvida. Há duas opções sobre adaptação e ainda não há nada sobre a regulação dos mercados de licenças de emissão de gases com efeito de estufa”, continuou Jennifer Morgan

Todos estes apelos são reforçados pelo secretário-geral das Nações Unidas, que diariamente dedica palavras de incentivo aos representantes das 197 nações representadas na cimeira. ” No último dia da COP 25, peço aos países que enviem uma mensagem de ambição ao mundo” , escreveu António Guterres, na rede social Twitter .